A cidade que temos ainda padece
de muitos males. É o esgoto a céu aberto; o lixão que repugna; a falta de
arborização; o trânsito caótico; a propaganda enganosa; a estética urbana fossilizada;
a imbecilidade dos sons automotivos à guisa de trios elétricos; ausência de
fiscalização; os discursos fáceis; agricultura que remonta ao período colonial;
a falta de perspectiva de emprego; a ausência de cursos profissionalizantes condizentes
com a realidade; os cenários montados; a aceitação de tudo como algum desígnio
divino.
A cidade que queremos ainda está
bem longe, inalcançável até. Um lugar onde se poderia andar pelas calçadas sem
correr o risco de tomar banho de lama; onde a iluminação pública chegue antes
da cobrança das taxas correspondentes; onde ninguém precise atravessar a cidade
para encontrar uma lixeira; onde as praças sejam locais de lazer e sossego; onde
ninguém tenha receios de tecer comentários contrários por medo de ficar
desempregado; onde o cidadão sinta-se sempre bem representado; onde não precise
enfrentar filas enormes para receber atendimento médico; onde a terceirização de
obrigações não signifique acomodações amigas; a cerva gelada tenha preços
módicos; onde um diploma escolar tenha mais valor que um título eleitoral; onde
a internet não sofra interrupções; e a lista não pára de crescer...
Ah, as utopias. O que seria do
homem se elas não existissem?
[...]Deixem-se de visões, queimem-se os versos.
O mundo não avança por cantigas.
Creiam do poviléu os trovadores
Que um poeta não val meia princesa.
Um poema contudo, bem escrito,
Bem limado e bem cheio de tetéias,
Nas horas do café lido fumando,
Ou no campo, na sombra do arvoredo,
Quando se quer dormir e não há sono,
Tem o mesmo valor que a dormideira.[...]
Álvares de Azevedo